sexta-feira, 22 de março de 2013

(CITAÇÕES ALEATÓRIAS) "...tudo existe para terminar em uma foto": o impacto da fotografia na mentalidade contemporânea para Susan Sontag


"A necessidade de confirmar a realidade e de realçar a experiência por meio de fotos é um consumismo estético em que todos, hoje, estão viciados. As sociedades industriais transformam seus cidadãos em dependentes de imagens; é a mais irresistível forma de poluição mental. Um pungente anseio de beleza, de um propósito de sondar abaixo da superfície, de uma redenção e celebração do corpo do mundo - todos esses elementos do sentimento erótico são afirmados no prazer que temos com as fotos. Mas outros sentimentos, menos liberadores, se expressam. Não seria errado falar de pessoas que tem uma compulsão de fotografar: transformar a experiência em si num modo de ver. Por fim, ter uma experiência se torna idêntico a tirar dela uma foto, e participar de um evento público tende, cada vez mais, a equivaler a olhar para ele em forma fotografada. Mallarmé, o mias lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, tudo existe para terminar numa foto."

("Na caverna de Platão", Sobre a fotografia, Susan Sontag)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

(IMAGINÁRIO EM PALAVRAS) "Drácula", de Bram Stoker (pt.1): Literatura é, antes de tudo, forma

Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens, 1922,  de F.W. Murnau,
adaptação expressionista de Drácula 

Sempre que começo a ler um livro, tenho o costume de dar uma olhada em blogs e redes sociais para analisar o que os leitores escrevem sobre aquilo que estou lendo. Não faço essa atividade para "guiar" minha leitura, mas sim para perceber como obras (especialmente as mais antigas) são relidas contemporaneamente.  Um rede ótima para ver isso é o Skoob, espaço em que os usuários podem adicionar ao seu perfil o livro que está lendo ou já leu , além do usuário poder inserir uma nota e comentar sobre suas impressões, sendo que ambas as qualificações do livro ficam abertas para outros usuários verem.

Em geral, sempre percebo que as pessoas avaliam as obras pela critério "gostei/ não gostei", o que eu acho ótimo, pois a leitura literária é exatamente isso, prazer. Só tenho percebido que esse "prazer" muito pouco tem se direcionado para questões mais "literárias", eu diria "estéticas". O prazer fica no âmbito do conteúdo da obra, no que está sendo lido, e muito pouco se fala  na maneira como está sendo contado.

Um exemplo sintomático do prazer buscado somente no conteúdo de uma obra literária é Drácula, de Bram Stoker. Passando o olho pelos comentários da obra na versão do selo L&PM Pocket (essa com o Béla Lugosi na capa) no Skoob percebi que os leitores constantemente reclamam da forma como o romance é narrado, em diários escritos por diferentes personagens da romance. Um exemplo: "a narrativa em formato de cartas enjoa um pouco e torna a leitura um tanto quanto cansativa, e quanto a falta de ação...". Mas esse leitor, que entendeu o formato de narração em diário como um romance epistolar (e até acho que parece) gostou do romance: "A obra em si é muito legal" Outros comentários focam totalmente na questão do conteúdo: "um clássico da literatura que revolucionou o mito do vampiro". Em outras palavras, as aventuras do grupo vitoriano liderado por Van Helsin contra o Conde Drácula seria boa, sendo que nessa avaliação não se inclui a reflexão de como Stoker teria revolucionado o mito vampiro.  As reflexões mais próximas disso ficam no nível representacional do personagem Drácula na obra: "Drácula ainda pode ser considerado, ironicamente devido a sua condição de vampiro, o personagem mais humano da trama".

Na sociedade brasileira, com suas atuais políticas públicas de incentivo a leitura, a leitura do conteúdo da obra literária sempre prevalece. Ao meu ver, há um certo esquecimento, por parte dos leitores e de muitos novos escritores, de que literatura, é antes de tudo, forma, ou seja, a primeira característica da literatura como hoje a entendemos é ser uma arte de palavras, impressas em uma folha em branco em que o leitor, de maneira silenciosa, deverá decodificar e interpretar.

Acredito que gostei muito de ter lido Drácula por ter admirado as escolhas formais de Stoker para narrar o horror fantástico, e foram por essas mesmas escolhas que seu romance foi aceito no momento de produção  e relido em outras épocas. O que as pessoas hoje percebem como algo enfadonho, pois sua narrativa em formato de diários é muitas vezes bem cansativa, foi justamente seu fator principal de sucesso, e não somente  inserção de um vampiro no plano do conteúdo do romance.  Acredito que o meu prazer foi estético frente a obra. Para explicar melhor esse meu prazer "estético", narrarei minha própria experiência como leitor de Drácula.

A narrativa não se baseia somente em um diário, possuindo também inserções de textos jornalísticos e de documentos comerciais. Assim, no decorrer do romance o leitor encontra diferentes gêneros textuais intercalados: o diário (escrito originalmente com símbolos estenográficos) do personagem Jonathan Harcker, o procurador que vai até a Transilvânia negociar a compra de uma antiga casa no subúrbio de Londres com o Conde Drácula; o diário da noiva de Jonathan, Mina Murray (também originalmente escrita com símbolos estenográficos); o diário de Lucy Sterna, amiga de Mina que está sendo cortejada por três pretendentes e acaba sendo vítima do Conde Drácula; o diário do doutor John Sewer (originalmente gravado), um dos pretendentes de Lucy; notas, ao fim do romance, escritas pelo punho do Dr. Van Helsing; cartas enviadas entre os personagens; notícias de jornais;  documentos de transações comerciais.

No início do romance, quando a narração finaliza o trecho do diário de Jonathan Harcker contando suas horríveis experiência como hóspede no Castelo do Drácula, passa-se o diário de Mina Murray, perguntei-me  "quem está organizando estes textos?". Não pensava necessariamente em Stoker, o escritor real que escreveu a obra,  mas sim na concepção do organizador da narrativa que estava aos meus olhos. Em termos de estudos literários,  minha pergunta coisa: "quem é o narrador de Drácula?"

No texto de Drácula, o leitor tem a sua frente os textos escritos por personagens narrando suas experiências, então, a principio  seriam vários narradores personagens. Porém, as trocas de um diário ao outro obedece a cronologia das datas registradas no início de cada entrada nos diários, como se alguém tivesse tido acesso a todos aqueles textos previamente e organizado-os em uma ordem temporal. Imaginei que deveria haver alguma explicação, dentro do universo ficcional da obra, de alguém que fizesse essa organização, nem que fosse uma nota ao final do livro. Esse "vazio" que a narrativa deixa em relação em que a organiza/ narra suscitados pelas trocas de diários me permitiu, como leitor, levantar a hipótese que o narrador provavelmente seria algo como o Redator do romance epistolar Ligações perigosas, escrito por Choderlos de Laclos, que organiza as cartas que o leitor vai ler. O Redator de Laclos se apresenta no inicio do livro, então pensei na hipótese de que o "Redator" de Drácula, como não se apresentou no início, se apresentaria no fim.

Os diários começam a se alternar entre o de Mina e o de sua amiga Lucy, intercalando cartas, notícias e  registros de transações comerciais que vão elucidando alguns acontecimentos narrados pelos diários. Essa inserção de diferentes gêneros textuais (ainda que sejam invenções de Stoker, eles obedecem as convenções do gênero jornalístico e comercial) pareceram-me estavam ali dispostos para provar que os acontecimentos cada vez mais fantásticos que as duas personagens narravam em seus diários não eram produtos de suas imaginações.

Minha hipótese inicial sobre o narrador mudou quando lido mais da metade do romance. Após os diários gravados de Dr. Seward (datilografados por alguém que a narrativa ainda não identifica) que narram a transformação de sua amada Lucy em vampira e a chegada de seu  amigo, o heterodoxo psicólogo holandês Van Helsing, todos os personagens se encontram.  E da conversa de Mina (agora Harker, pois casou com o personagem Jonathan) com Van Helsing que compreendi quem estava organizando o texto que eu lia. Era a própria Mina, que reuniu os diferentes registros relacionados ao Conde Drácula produzidos pelos personagens e datilografou-os para todos os personagens lerem da mesma maneira que o leitor agora lia.

A organização desse material por uma personagem que vive os acontecimentos é diferente da situação do Redator de Ligações Perigosas. O romance não é uma história para ser lida somente pelo leitor, mas também para ser lida pelas personagens como prova documental de que o horror fantástico da figura de Drácula é real. Os diários são, como na fala da personagem Mina para Van Helsing, o registro dos acontecimentos "na própria oportunidade em que tal ocorrência se verificou" (STOKER, 2011, p.268), um testemunho fidedigno dos acontecimentos através do registro escrito. A inserção de outros documentos (noticiais de jornais e documentos comerciais), reunidos pelos diferentes personagens, servem como uma corroboração empírica de que os elementos fantásticos que os personagens narram não são produto de sua fantasia, como eu já havia inferido antes. Não há duvidas para os personagens: a união dos diferentes textos de maneira expositiva comprovam que o horror fantástico encarnado na enigmática figura do Conde Drácula é real.

Aqui é necessário uma digressão "histórica", a mesma que fiz nesse momento da leitura. Drácula foi lançado na Inglaterra em 1897, período de auge do que chamado "cientificismo" do século XIX. É o momento em que o pensamento religioso é descartado como forma de explicação de mundo e substituído pela observação empírica da realidade. É a época de impacto do pensamento de Darwin, da ciência positiva e de uma série de avanços na área das "ciências duras". Tal momento histórico do pensamento ocidental descartou o mito e o fantástico como puras invenções, mentiras contadas sobre o mundo que só serviriam para enganar e ludibriar os crédulos. É do cientificismo que deriva a literatura "realista", que busca expressar o real "tal qual ele é".

Drácula é uma expressão artística que busca denunciar os excessos do pensamento cientificistas, da "cegueira" racional frente ao mundo mítico. Ao reler o mito do vampiro, Stoker faz mais do que simplesmente reinseri-lo dentro da literatura ocidental: o romance mostra que a pretensão a compreensão total da realidade através da ciência e da razão não consegue dar conta de elementos ainda "arcaicos" em  nossa mundo, representado pelo vampiro que, saindo da Idade Média, volta a aterrorizar a humanidade em Londres, o centro do cientificismo e do capitalismo imperialista.

Van Helsing é a figura que personifica essa crítica. Ele é um cientista, mas não deixa de ignorar que a ciência tem seus limites, além de perceber que muitas explicações tidas como "científicas" nada mais são que releituras de antigos mitos. Conversando com seu amigo,  Dr. Sewer, um cientistas cético que exita em acreditar nos elementos fantásticos que enxerga, Van Helsing diz: 
 Ah! Essa é a grande lacuna de nossa ciência positiva, que continua eximindo-se e recusando-se a esclarecer todos esses inexplorados ângulos, Ou então, quando pensa que a aborda, limita-se  dizer-nos que nada tem a explicar. Apesar disso, vemos todos os dias tais crenças se multiplicarem e se desenvolverem sempre sob a convicção de que todas elas são realmente novas. Em sua maioria, não passam de rituais primitivos que se fingem criações recentes, como as nossas primas-donas dos teatros de ópera. (p.281-282)
O cientificismo, a ciência positiva e objetiva que o século XIX alcançou, entra em crise frente a ressurgência do fantástico em seu próprio meio. Neste momento da leitura, o ser mitológico vampiro indo morar em Londres de 1890 foi por mim percebido como uma alegoria a crise do cientificismo racionalista, anunciada por outros no mesmo período, como Nietzsche, e consolidada posteriormente com o advento da psicanálise, da antropologia cultural, entre outras novas áreas do saber no século XX. Pensando um pouco em "o que" Drácula traz em sua narrativa, interpretei que vampiro surge aí como um elemento "arcaico" do pensamento Ocidental que, mesmo após as variadas investidas do cientificismo, continua sua vida na modernidade. Essa "sobrevida" do mito (e aí a genial escolha de um morto-vivo para a alegoria) permite relativizar dentro da obra o que os personagens, oriundos das classe média  alta burguesia,  entendiam por "real" e "natural". 

Mas, apesar da crítica a cientificismo, Stoker não abriu mão de contar o fantástico através de elementos realistas de narração. O horror, para ser aceito no final do século XIX, ainda precisa de provas. A possível subjetividade expressa na narração em diários é anulada, seja pela inserção de documentos, que para o período seriam a comprovação empírica da verdade, seja pela própria ideia de que esses testemunhos buscam registrar objetivamente  o que acontece com os personagens ao invés de suas impressões pessoais.

Acho que é aí que está a beleza formal de Drácula: o horror fantástico é aceito pelo leitor pelas "provas" que compõem a própria narração que está sendo lido. "Provas" vão aí com aspas, relacionadas mais a um aspecto de verossimilhança da obra que não fere totalmente os critérios de "verdade" e "realidade" que o leitor tem. O leitor não irá acreditar em vampiros, mas vai entender que no universo do romance existem várias provas que, se surgissem no mundo real, seriam irrefutáveis.

É como prova do que está acontecendo que os textos são lidos  pelos personagens do romance. A junção dos diferentes registros em uma única narrativa tem a função ser o conhecimento pelo qual os personagens irão propor sua ação para enfrentar o monstro. É Mina Harcker que percebe a função terapêutica, eu diria catártica, do texto que organizou, vendo dois dos pretendes de Lucy lendo-o e eliminando o medo do horror que até então sentiam:
O destitoso Arthur pareceu-me bastante mais animado do que tinha estado desde que Lucy adoecera, e o próprio Quincey voltou a ser quase tudo o que era em matéria de boa disposição e espírito. (p.347)
A experiência do horror, organizada em uma narrativa, funciona como elemento central da passagem de Drácula do modo dramático, onde os personagens se debatiam sem compreender o que aconteciam a sua volta, para o modo épico, em que os personagens tornam-se "heróis virtuosos" que se armam para enfrentar o monstro. É dessa maneira que o personagem Dr. Seward percebe o efeito da leitura desse texto nos outros personagens: 
Todos os demais haviam lido tudo. Assim, quando nos reunirmos no escritório, estaremos a par de todos os fatos devidamente esclarecidos para traças  todo o plano de combate contra o nosso misterioso e temível inimigo. (p.349)

Foi aí que eu entendi que a forma do romance era fundamental para entendê-lo. A "entendiante" narrativa em formato de diário e a profusão de outros gêneros textuais intercalados entre eles servem para angariar o cético leitor do século XIX. Mais do que isso,  essa forma traz implícita a função de narrar o horror: organizar uma narrativa coerente sobre nossos medos é já uma forma de superá-los. A linguagem realista, a forma pela qual Stoker resolveu contar  a história de uma vampiro da Europa Central indo para Londres, foi sua arma técnica para fazer o horror deixar de ser algo "infantil" para passar a ser aceito pelos leitores como algo a ser temido mas que, através da ação terapêutica da narração e da leitura, seria vencido. 

Vejo assim Drácula como um percursor da remitologização da literatura proposta pelos escritores vanguardistas do século XX. Ao meu ver, essa percepção formal da narrativa não é exercício de "estudante de Letras", como já vi muitos falarem, pois ela é fundamental para entender a construção do moderno mito do vampiro: foi primeiramente pela forma como o mito foi contado em Drácula que ele se tornou "moderno". Além disso, atentar para a forma que está sendo narrado e respeitar e degustar com maior profundidade um dos elementos centrais que torna, a literatura uma arte.

Creio que esse tipo de leitura, que presta atenção nos aspectos formais, pensando não somente em "o que está sendo contado" mas também em "como está sendo contado", é uma mudança qualitativa da percepção do literário dentro da conjuntura atual. Talvez seja difícil, principalmente porque as apropriações contemporâneas diretas de Bram Stoker são narrativas formalmente péssimas, como a "rainha" do romance vampiresco Anne Rice e a última febre vampiresca do momento, Stephanie Meyer. São narrativas que, ao invés de obrigar o leitor a pensar no "como", focam somente no "o que", não exigindo reflexão e proporcionando prazer barato. Não é por "pedantismo" ou "elitismo" que professores de literatura chamam esse romances como "de massa". Esse produtos culturais, ainda que expressos em linguagem literária, não visam estimular o leitor a refletir sobre a literatura como arte, sendo mais um divertimento grosseiro a ser consumido como se vê um filme block buster no cinema. Ainda não estimularem esse tipo de reflexão, a literatura perde sua possibilidade de estimular  pensamento crítico para se tornar mera distração. 

Para finalizar essa primeira parte, gostaria de salientar o subtítulo desse post. Para mim "literatura é, antes de tudo, forma". No "antes de tudo" eu quis deixar explícito que literatura para mim não é só como é contado. Para mim, literatura é também simbólica, uma expressão artística que busca significar algo profundo para seus leitores para além dos significados aparentes que ela traz. Minha própria leitura "formal" já traz elementos que dizem respeito a sociedade que o romance foi publicado e em significações possíveis de serem apreendidas pelo leitor.

Em meu próximo post, pretendo ampliar alguns aspectos simbólicos já apontados na forma do romance pensando no mito do vampiro tal qual eu percebi em minha leitura de Drácula.

Referência

STOKER, Bram. Drácula. Porto Alegre: L&PM, 2011. Tradução de Theobaldo de Souza. 





sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

(CITAÇÕES ALEATÓRIAS) Devaneios sobre Matrix: por uma terceira pílula


"(...) a escolha entre a pílula azul e a vermelha não é verdadeiramente uma escolha entre ilusão e realidade. É claro que a Matrix é uma máquina de produzir ficções, mas são ficções que já estruturam nossa realidade. Se tirarmos da realidade as ficções simbólicas que a regulam, perdemos a própria realidade.

Eu quero a terceira pílula.

Mas o que é a terceira pílula? Certamente não algum tipo de pílula transcendental que conduza a uma falsa experiência religiosa do tipo fast-food, mas uma pílula que me permita perceber não a realidade por trás da ilusão, mas a realidade contida na própria ilusão."

(Slavoj Zizek no documentário "The Pervert's Guide to Cinema")

sábado, 15 de dezembro de 2012

(CITAÇÕES ALEATÓRIAS) Ausência e Presença: o sexo coberto de signos


Antonin Artaud, protagonista do romance de Silviano Santiago

Em minha leitura de Teoria literária: uma introdução, de Jonathan Culler, chamou-me a atenção a análise de Jacques Derrida da obra Confissões, de Jean-Jacques Rousseau. Segundo Culler, Derrida considera que Rousseau inaugura o senso comum de que a realidade seria a "presença" que motiva os signos, uma "ausência". Porém nas descrições sobre suas aventuras amorosas, Rousseau acaba narrando, sem perceber, que precisamos constantemente  da mediação de signos em relação a pessoa amada independente de sua presença ou ausência. Disso Derrida concluirá que "Não há nada fora do texto", pois a realidade, ao invés de motivar os signos, é motivada por ela.

Achando mais interessante do que a conclusão de Derrida, a ideia de que as relações amorosas entre os indivíduos, especialmente o sexo, são cobertas de signos me levou a uma divagação sobre o trecho que cito a seguir do romance Viagem ao México, de Silviano Santiago. O protagonista do romance, o ator e dramaturgo Antonin Artaud, explicita a relação entre ausência e presença em que o signo não é mais um mediador do sexo, mas sim o próprio espaço onde a sexualidade é exercida:

"Te digo que a descrição de um corpo humano em palavras, em palavras que se adentram pelas partes erógenas do corpo, nomeando-as, me excita tanto quanto o prazer de tocar um corpo de carne e osso para seduzi-lo e penetrá-lo, ou ser penetrado por ele. A sexualidade ou passa pelos olhos e é palavra, ou passa pelos olhos fechados e pelo tato, e é corpo. Nunca uma imagem, imaginação. Posso até usar a imagem para erotizar o outro que está ao meu lado, isso quanto este outro não está querendo ser erotizado pelas minhas mãos. No relacionamento a dois, a imagem é um terceiro ausente e abstrato que pouco me motiva. Na solidão, masturbo-me com a ajuda de palavras concretas, de narrativas pornográficas que vão descrevendo situações obscenas da carne que deseja e que se oferece ao apetite do outro; no caso, a mim, leitor daquelas palavras."
(Silviano Santiago, Viagem ao México)

Há uma verdadeira pornografia (sem o sentido pejorativo do termo) entre o significante e o significado sem a qual não existiria o sexo como o compreendemos.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

(CITAÇÕES ALEATÓRIAS) Cioran: a modernidade no auge do pessimismo


"O homem tem todas as chances de desaparecer e desaparecerá mais cedo do que pensa, mas, por outro lado, tem toda a razão em prolongar essa tragicomédia, nem que seja por distração ou por vício."

"Não queremos mais suportar o peso das "verdades", continuar sendo suas vítimas e seus cúmplices. Sonho com um mundo que se morreria por uma vírgula."

"Ser um Raskolnikov- sem a desculpa do homicídio."

‎" O real me dá asma."

"Graças à melancolia- esse alpinismo de preguiçosos- escalamos da nossa cama todos os cumes e sonhamos de todos os precipícios."

"O que arruína a alegria é sua falta de rigor; contemple, por outro lado, a lógica do fel..."

"O Desespero é o descaramento da desgraça, uma forma de provocação, uma filosofia para épocas indiscretas."

"Ninguém pode conservar a solidão se não sabe fazer-se odioso."

"Só vivo porque posso morrer quando quiser. Sem a ideia do suicídio já teria me matado há muito tempo."

"No pessimista se combinam uma bondade ineficaz e uma maldade insatisfeita."

"Se acreditasse em Deus, minha fatuidade não teria limites: passearia nu pelas ruas..."

"A arte de amar? Saber unir  a um temperamento de vampiro a discrição de uma anêmona."

"Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus."

"A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade."

"Evolução: Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição."

"Uma espiada no itinerário da civilização me dá uma presunção de Cassandra."

"O segredo de minha adaptação a vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa."

"A Verdade? Encontra-se em Shakespeare; um filósofo não poderia apropriar-se dela sem explodir com seu sistema."

"Apenas adolescente, a perspectiva da morte me horrorizava; para fugir dela corria ao bordel ou invocava anjos. Mas, com a idade, nos habituamos a nossos próprios terrores, não fazemos mais nada, nos aburguesamos no Abismo. E se houve um tempo em que invejas esse monges do Egito que cavavam suas tumbas para chorar sobre elas, se cavasse a minha agora seria apenas para jogar pontas de cigarro."

(Emil Cioran, Silogismos da amargura)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Les mots, les choses" : a linguagem poética para Jean-Luc Godard


Anne Wieazemsky (Veronique) e Jean Pierre Leaud (Guillaume)
em "La Chinoise", de 1967

Guillaume: " 'A juventude é uma chama de ódio, amor, tristeza, felicidade.' Disposto a abrir seu coração ao amor, como uma inválida, Oneguin...

Veronique: Oneguin.

Guillaume: ...Oneguin, com um olhar sério, escutava as inconfidências do poeta que, ingenuamente, revelava sua cândida consciência." Eu queria ser cego.

Veronique: Por quê?

Guillaume: Para falarmos melhor um com o outro; prestaríamos mais atenção.

Veronique: Como?

Guillaume: Usaríamos a linguagem de forma diferente. Em dois mil anos as palavras as palavras mudaram de significado.

Veronique: E daí?


Guillaume: Conversaríamos mais seriamente um com o outro. Isso significa que os significados mudariam as palavras.

Veronique: Sim, concordo. Falar como se as palavras fossem som e matéria.

Guillaume: E isto é o que elas são... Veronique.

Veronique: Certo, vamos tentar.

Guillaume: Na margem do rio.

Veronique: Verde e azul.

Guillaume: Ternura.

Veronique: Um pouco de desespero.

Guillaume: Depois de amanhã.

Veronique: Talvez.

Guillaume: Teoria da literatura.

Veronique: Um filme de Nicholas. Ray.

Guillaume: Os-jul-ga-men-tos-de-Mos-cou.

Veronique: Pássaro vermelho.

Guillaume: Rock... and roll.

Veronique: Et cetera.

Guillaume: Et cetera?

Veronique: Sim...

Guillaume: Eu te amo, você sabia?


(cena de  "La chinoise", 1967, com roteiro e direção de Jean-Luc Godard)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

(CITAÇÕES ALEATÓRIAS) Imagens obsessivas, narrativas labirínticas



"Pronto o labirinto, Dédalo sentiu que jamais seria capaz de fazer outro labirinto. Era sempre assim quando acabava uma obra, Depois vinha-lhe outra ideia, outra obra nascia. Agora tinha a certeza de que era diferente, tinha de esquecer aquele labirinto. Mesmo esquecendo, sabia que, quando tivesse de fazer outro labirinto, o risco seria igual ao primeiro. Porque tinha o labirinto dentro de si. Da mesma maneira que um caracol, por mais diferente que seja dum caramujo, sempre tem como ele alguma coisa de comum. Sempre foi assim? Mesmo aquele primeiro labirinto não seria uma repetição dum outro labirinto que ele viu não sabia onde e se esqueceu e depois sonhou e só se sonha aquilo que se tem dentro de si bem enterrado e esquecido? Da mesma maneira que um árvore já está toda inteira dentro da sua semente, aprisionado. Dédalo agora se perdia nos corredores de ideias labirínticas. Ele estava perdido antes de qualquer condenação.

Finalmente Dédalo chegou à inevitável conclusão de que labirinto nada mais é do que a aventura da ordem."

(Autran Dourado, Meu mestre imaginário)